Hooked. Revista
Relógios · Watches & Wonders

Watches & Wonders 2026: o que ficou de Genebra

Sete dias, mais de quarenta marcas, e uma tendência clara: o mercado regressou ao essencial. O que aconteceu em Abril em Genebra e por que é que importa.

Junho 2026 · Hooked.

O Palexpo encheu-se pela décima quarta vez de relógios, jornalistas e coleccionadores entre 14 e 20 de Abril, e o que ficou desta edição de Watches & Wonders não foi uma única peça extraordinária — foi uma tendência que atravessou marcas, famílias e segmentos de preço com uma consistência que raramente se vê neste mercado: o regresso ao que importa. Casos mais pequenos. Materiais naturais. Mostradores limpos. Complications que justificam a sua existência. Um certo cansaço da ostentação que tem marcado os últimos anos, substituído por algo mais próximo do que os melhores relojoeiros suíços sempre souberam fazer quando ninguém os perturbava.

A edição de 2026 foi, em muitos aspectos, a confirmação de algo que os observadores mais atentos já suspeitavam desde W&W 2025: o mercado de relógios de luxo encontrou o seu equilíbrio depois do frenesim pós-pandemia. Os preços estabilizaram. As listas de espera encurtaram. E as marcas, libertadas da pressão de produzir para uma procura que excedia a oferta, voltaram a fazer aquilo que fazem melhor — pensar cuidadosamente sobre o que lançam, e porquê.

"2026 foi o ano em que Genebra decidiu que menos é mais. Algumas marcas perceberam antes das outras."

A narrativa maior da semana foi a Patek Philippe, que apresentou o Calatrava 5249R — um automato de bolso convertível em peça de mesa com figuras em ouro e esmalte que representam a passagem das horas. A manufacture de Stern não faz automatos frequentemente; quando os faz, é precisamente porque o momento é certo para afirmar que há coisas que só podem ser feitas num determinado contexto, com um determinado tempo e uma determinada visão. O 5249R não é um relógio para todos — é uma declaração sobre o que a relojoaria pode ser quando não tem pressa.

Watches & Wonders reúne anualmente mais de quarenta marcas no Palexpo de Genebra. A edição de 2026 foi marcada pela sobriedade e pelo regresso ao essencial.

A Rolex, que marcou o centenário do Oyster Perpetual em 2025, chegou a 2026 com um conjunto de actualizações às suas famílias core que sublinharam o mesmo princípio: refinamento sem ruptura. O destaque foi a nova geração do Oyster Perpetual em 36mm com mostrador verde bosque — uma interpretação dos tons naturais que a marca tem explorado nos últimos anos — a um preço de entrada que posiciona o OP como o relógio Rolex acessível sem compromissos.

O Grand Seiko SBGZ011 Mystic Waterfall foi, para muitos críticos, a peça mais bela da semana. Em platina, com o mostrador em Zaratsu-polished inspirado nas quedas de água do Japão no inverno, é um relógio que só faz sentido visto ao vivo — as fotografias não captam a forma como a luz interage com as superfícies. A Grand Seiko tem ganho terreno progressivo nas listas de desejos dos coleccionadores europeus, e o Mystic Waterfall é o tipo de peça que converte céticos em crentes.

As tendências de W&W 2026

Casos menores: a corrida ao 44mm parece ter terminado. Múltiplas marcas lançaram versões em 36-38mm das suas principais famílias, respondendo a uma procura que o mercado demorou a reconhecer.

Materiais naturais: platina, titânio, cerâmica — e um regresso surpreendente ao bronze em várias marcas independentes. O ouro branco perdeu terreno para o ouro amarelo.

Mostradores em esmalte: a técnica mais antiga da relojoaria voltou com força. Dez marcas apresentaram pelo menos uma referência com trabalho de esmalte em 2026, o número mais alto em anos.

Complications significativas: menos tourbillons decorativos, mais calendários, cronógrafos e complications úteis. O mercado quer mecanismos que justifiquem a sua presença.

Entre as marcas independentes, a Parmigiani Fleurier apresentou aquilo que pode ser o cronógrafo mais original da semana: um mecanismo de cronógrafo mistério em que os ponteiros de cronógrafo parecem flutuar sobre o mostrador sem eixo visível, através de um sistema de transmissão por disco que a manufacture desenvolveu durante seis anos. É o tipo de projecto que os relógios de alta relojoaria independente fazem melhor — uma solução técnica para um problema que ninguém tinha pensado em resolver, porque a solução convencional já funcionava. Em relojoaria fina, isso nunca foi razão suficiente para não tentar.

O que fica de W&W 2026 é uma sensação que os que acompanham o mercado há décadas reconhecem: o mercado de relógios de luxo está saudável quando as marcas se preocupam mais com o que fazem do que com o que vendem. Este foi um ano em que Genebra demonstrou essa distinção com clareza. Os próximos meses dirão se o mercado responde da forma correspondente.

"Genebra em Abril é sempre um espelho do que o mercado acredita sobre si próprio. Em 2026, o reflexo era mais honesto do que nos últimos anos."

Para quem compra relógios com intenção — não como investimento financeiro, não como símbolo de estatuto, mas como objectos que contam o tempo de uma forma que merece atenção —, 2026 foi um bom ano para estar em Genebra. Ou, pelo menos, para acompanhar de perto o que de lá saiu.